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QUEM GOVERNAVA O BRASIL NA PRIMEIRA REPÚBLICA?

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CONTATO

A monarquia foi derrubada por ser centralizadora, autoritária e excluir a grande maioria do povo brasileiro da participação política (devido ao voto censitário). A República implantada em 1889 era, por lei, descentralizadora e liberal, e adotava o voto universal masculino. Isso garantia a instalção de um governo plenamente democrático? O trecho abaixo, extraído do romance de um escritor gaúcho, nos dá algumas pistas.

Rodrigo havia sido indicado pela oposição para fiscal duma das mesas eleitorais. Pôs o revolver na cintura, uma caixa de balas no bolso e encaminhou-se para seu posto, no nobre salão do Centro Republicano. A chamda dos eleitores começou às sete da manhã. Plantados junto da porta, os capangas (indíviduos que serviam como guarda-costas dos poderosos) do Trindade ofereciam cédulas com o nome dos candidatos oficiais a todos os eleitores que entravam. Estes, em sua quase totalidade, tomavam docilmente os papeluchos e depositavam-nos na urna, depois de assinar a autêntica. Os que se recusavam a isso tinham os nomes acintosamente (ou seja, de maneira proposital e provocativa) anotados. [...]

            Rodrigo estava deprimido. Deve ser o calor – concluiu tirando o casaco e desabotoando o colarinho. Passou o lenço pelo rosto e pensou em que tinha de passar o dia inteiro ali naquela sala desagradável. [...]

             O mesário (pessoa que, durante as eleições, fica à mesa onde está a urna eleitoral controlando o depósito dos votos e a lista dos eleitores) que fazia a chamada gritou:

            – Arnesto Tavare Nune.

            Apareceu um homenzinho baixo, de ar bisonho (isto é, acanhado, tímido).

            – Protesto, senhor presidente! – bradou Rodrigo.

            – Por quê?

            – Esse sujeito é um impostor. Ernesto Tavares Nunes já morreu.

            O presidente dirigiu-se ao eleitor.

            – Como é o seu nome?

            O homem olhou primeiro para Rodrigo, hesitante, depois para a cédula que um capanga lhe havia posto nas mãos e finalmente balbuciou, visivelmente embaraçado.

            – Arnesto Tavare Nune.

            Rodrigo pôs-se de pé.

            – Apelo para os membros da mesa e para os senhores aqui presentes que sabem tão bem quanto eu que Ernesto Tavares Nunes está morto e enterrado.

            Fez-se um silêncio.

            – Vamos ao cemitério – convidou Rodrigo – e eu lhes mostrarei o túmulo desse cidadão.

            O presidente da mesa coçou a cabeça com a ponta da caneta.

            – Dr. Rodrigo, nós não temos tempo para essas coisas, e mesmo a lei não nos autoriza...

            – Ora, quem quer falar em lei! Vamos ao registro de óbitos, então.

            – O homem vai votar e o  senhor depois lavra (registra) o seu protesto.

            – A velha história! Meu protesto não será levado em conta! É a indecência de sempre!

            – Assine o seu nome aqui – disse o presidente ao eleitor.

            – Continuem a farsa (ou seja, a mentira)! – gritou Rodrigo. Sentou-se indignado, pegou um lápis e começou a escrever numa folha de papel todos os palavrões que sentia ímpetos de atirar na cara do presidente da mesa e dos fiscais hermistas (partidários de Hermes da Fonseca, candidato do governo vitorioso na eleição para presidente da República em 1910).

 

 

Érico Veríssimo. O Retrato (1951). V. II, da Trilogia O Tempo e o Vento. São Paulo: Círculo do Livro, s.d., p. 259-60.

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